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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Desflorando Florbela Espanca

 
Todos que aqui me acompanham já sabem de minha admiração
e (fã)natismo por Florbela Espanca. Como li por estes dias
em minhas andanças pela web, seu próprio nome já é Poesia.
Florbela viveu uma vida intensa e teve um fim trágico, biografia digna de todos os mitos que povoam ou já povoaram um dia nossos sonhos e a história.
Mas Florbela não foi só Poesia, ela também (pasmem) escreveu
em Prosa e deixou ao mundo luso-literário muito para
se ler e se admirar.
Todas as suas obras atualmente são de Domínio Público, o que muito facilita para se difundir e se propagar sua escrita.
Deixo aqui exposto tudo que conheço a respeito e tenho acesso sobre Florbela: desde um filme baseado em sua Biografia, polêmico, mas de uma trama incrível, até muitos de seus livros de Poesia e Prosa publicados em Vida ou com publicação Póstuma que
merecem ser desflorados página por página!
Aprofundar, admirar e se apaixonar por Florbela Espanca, esta é a receita. Bom apetite!
 
Links recomendados:
 
Biografia (Wikipédia)
 
 
Filme Biográfico:
 
 
 
Poesia:
 
*A mensageira das Violetas
 
 
 
*Charneca em Flor
 
 
 
*Livro de Mágoas
 
 
 
*Livro de Sóror Saudade
 
 
 
*O livro D'ele
 
 
 
*Poemas Selecionados
 
 
 
*Reliquiae
 
 
 
Prosa
 
*Máscaras do Destino
 
 
*O Dominó Preto
 
 
Desejo uma boa leitura!
 
Karina Aldrighis
 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Procura (com Florbela Espanca)

Uma vez mais continuo sozinha
em minha caminhada.
Muitos amigos procurei,
muitas línguas provei,
mas continuo sozinha
mergulhada em minha solidão.


O mundo é cruel,
e não quer partilhar
das suas aventuranças!
Só me faz companhia a poesia
esta nunca me abandona,
e está sempre em conluio
com a minha inspiração.


O que me resta é a esperança
de um dia poder encontrar
uma boa companhia.
Por enquanto vou usufruindo
da alma bela poesia
e contando com a sorte
da minha compreensão.


Compartilho desta agonia
com a querida Florbela Espanca
que muito chorou a tristeza
de nunca ter encontrado
em sua terna existência
o aconchego de uma paixão.


(Jamais extinguiu a frieza
de uma presença vazia
que iluminasse seus dias
e aquecesse seu coração.)


Karina Aldrighis


 

O Meu Condão”



Quis Deus dar-me o condão de ser sensível
Como o diamante à luz que o alumia,
Dar-me uma alma fantástica, impossível:
- Um bailado de cor e fantasia!

Quis Deus fazer de ti a ambrosia
Desta paixão estranha, ardente, incrível!
Erguer em mim o facho inextinguível,
Como um cinzel vincando uma agonia!

Quis Deus fazer-me tua... para nada!
- Vãos, os meus braços de crucificada,
Inúteis, esses beijos que te dei!

Anda! Caminha! Aonde?... Mas por onde?...
Se a um gesto dos teus a sombra esconde
O caminho de estrelas que tracei...” 


Florbela Espanca (1894-1930) em "Charneca em Flor"


(Mais em  http://pt.wikipedia.org/wiki/Florbela_Espanca)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Para que?!

  Tudo é vaidade neste mundo vão ...
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão! ...

Beijos de amor! Pra quê?! ... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta! ...

Florbela Espanca, em "Livro de Mágoas"

sábado, 1 de outubro de 2011

Mendiga


Na vida nada tenho e nada sou;

Eu ando a mendigar pelas estradas...

No silencio das noites estreladas

Caminho, sem saber para onde vou!


Tinha o manto do sol... quem mo roubou?!

Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!

Quem foi que sobre as ondas revoltadas

A minha taça de oiro espedaçou?


Agora vou andando e mendigando,

Sem que um olhar dos mundos infinitos

Veja passar o verme, rastejando...


Ah, quem me dera ser como os chacais

Uivando os brados, rouquejando os gritos

Na solidão dos ermos matagais!...


Florbela Espanca

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Florbela...


FLORBELA ESPANCA


AMIGA

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,

A tua amiga só, já que não queres

Que pelo amor seja a melhor,

A mais triste de todas as mulheres.


Que só a ti, me venha magoa e dor

O que me importa?! O que quiseres

É sempre um sonho bom! Seja o que for,

Bendito sejas tu por mo dizeres!


Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...

Como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...


Beija-mas bem!...que fantasia louca

Guardar assim, fechados, nestas mãos

Os beijos que sonhei pra minha boca!...



A MINHA DOR

à você


a minha Dor é um convento ideal

cheio de claustros, sombras, arcarias,

aonde a pedra em convulsões sombrias

tem linhas dum requinte escultural.


Os sinos têm dobras de agonias

Ao gemer, comovidos, o seu mal...

E todos têm sons de funeral

Ao bater horas, no correr dos dias...


A minha Dor é um convento. Há lírios

Dum roxo macerado de martírios,

Tão belos como nunca os viu alguém!


Nesse triste convento aonde moro,

Noites e dias rezo e grito e choro,

E ninguém ouve...ninguém vê...ninguém...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Os meus versos

Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste

O encanto supremo que os ditou?

Acaso, quando os leste, imaginaste

Que era o teu esse olhar que os inspirou?


Adivinhaste? Eu não posso acreditar

Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo.

Tu disseste para ti: “Por um olhar

Somente, embora fosse assim tão lindo,


Ficar amando um homem!...que loucura!”

- pois foi o teu olhar; a noite escura,

- (Eu só a ti digo, e muito a medo...)


Que inspirou esses versos! Teu olhar

Que eu trago dentro d’alma a soluçar!

...........................................................

Aí não descubras nunca o meu segredo!


Florbela Espanca


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Carta para longe


O tempo vai um encanto,

A Primavera ‘stá linda,

Voltaram as andorinhas...

E tu não voltaste ainda!...


Porque me fazes sofrer?

Porque te demoras tanto?

A Primavera ‘sta linda...

O tempo vai um encanto...


Tu não sabes, meu amor,

Que, quem ‘spera, desespera?

O tempo está um encanto...

E, vai linda a Primavera...


Há imensas andorinhas;

Cobrem a terra e o céu!

Elas voltaram aos ninhos...

Volta também para o teu!...


Adeus. Saudades do sol,

Da madressilva e da hera;

Respeitosos cumprimentos

Do tempo e da Primavera.


Mil beijos da tua q’rida,

Que é tua por toda a vida.


Florbela Espanca

Junquilhos...

Nessa tarde mimosa de saudade

Em que eu te vi partir, ó meu amor,

Levaste-me a minh’alma apaixonada

Nas olhas perfumadas duma flor.


E como a alma, dessa florzita,

Que é a minha, por ti palpita amante!

Oh alma doce, pequenina e branca,

Conserva o teu perfume estonteante!


Quando fores velha, emurchecida e triste,

Recorda ao meu amor, com teu perfume

A paixão que deixou e qu’inda existe...


Ai, dize-lhe que se lembre dessa tarde,

Que venha aquecer-se ao brando lume

Dos meus olhos que morrem de saudade!


Florbela Espanca


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Rústica

(Acervo Pinacoteca do Estado SP/Foto: Karina Issamoto)

Rústica

Ser a moça mais linda do povoado,
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A benção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho...
Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho...

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à “terra da verdade”...

Meu Deus, daí-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de princesa,
E todos os meus reinos de ansiedade.

Florbela Espanca

Crucificada

(Acervo Pinacoteca do Estado SP/Foto: Karina Issamoto)

Crucificada

Amiga...noiva...irmã...o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei de merece-las,
Ao beijar a esmola que me deres.

Podes amar até outras mulheres!
_Hei de compor, sonhar palavras belas,
lindos versos de dor só para elas,
para em lânguidas noites lhes dizeres!

Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei de pousar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.

E depois... Ah, depois de dores tamanhas,
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra mãe!

Florbela Espanca

Florbela Espanca

Biografia – Floberta Espanca

Floberta Espanca (1894-1930), ignorada pela preconceituosa crítica do inicio do século, é considerada hoje em dia a mais sublime voz feminina da poesia portuguesa de todos os tempos. Seus sonetos são um ousado diário intimo, onde palpitam as ânsias de uma mulher ardente, a clamar pelas caricias de um amor impossível. O caudal dessa insatisfação veio desembocar na trágica madrugada de seu 36º aniversario, quando a bela e carnal alentejana se calou para sempre, após uma dose excessiva de Veronal.