Estudo psicológico da personalidade de Florbela Espanca:
http://www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0065.pdf

Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas...
No silencio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!
Tinha o manto do sol... quem mo roubou?!
Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de oiro espedaçou?
Agora vou andando e mendigando,
Sem que um olhar dos mundos infinitos
Veja passar o verme, rastejando...
Ah, quem me dera ser como os chacais
Uivando os brados, rouquejando os gritos
Na solidão dos ermos matagais!...
Florbela Espanca

FLORBELA ESPANCA
AMIGA
Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.
Que só a ti, me venha magoa e dor
O que me importa?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!
Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...
Beija-mas bem!...que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei pra minha boca!...
A MINHA DOR
à você
a minha Dor é um convento ideal
cheio de claustros, sombras, arcarias,
aonde a pedra em convulsões sombrias
tem linhas dum requinte escultural.
Os sinos têm dobras de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...
A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento aonde moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve...ninguém vê...ninguém...
Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste
O encanto supremo que os ditou?
Acaso, quando os leste, imaginaste
Que era o teu esse olhar que os inspirou?
Adivinhaste? Eu não posso acreditar
Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo.
Tu disseste para ti: “Por um olhar
Somente, embora fosse assim tão lindo,
Ficar amando um homem!...que loucura!”
- pois foi o teu olhar; a noite escura,
- (Eu só a ti digo, e muito a medo...)
Que inspirou esses versos! Teu olhar
Que eu trago dentro d’alma a soluçar!
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Aí não descubras nunca o meu segredo!
Florbela Espanca

O tempo vai um encanto,
A Primavera ‘stá linda,
Voltaram as andorinhas...
E tu não voltaste ainda!...
Porque me fazes sofrer?
Porque te demoras tanto?
A Primavera ‘sta linda...
O tempo vai um encanto...
Tu não sabes, meu amor,
Que, quem ‘spera, desespera?
O tempo está um encanto...
E, vai linda a Primavera...
Há imensas andorinhas;
Cobrem a terra e o céu!
Elas voltaram aos ninhos...
Volta também para o teu!...
Adeus. Saudades do sol,
Da madressilva e da hera;
Respeitosos cumprimentos
Do tempo e da Primavera.
Mil beijos da tua q’rida,
Que é tua por toda a vida.
Florbela Espanca
Nessa tarde mimosa de saudade
Em que eu te vi partir, ó meu amor,
Levaste-me a minh’alma apaixonada
Nas olhas perfumadas duma flor.
E como a alma, dessa florzita,
Que é a minha, por ti palpita amante!
Oh alma doce, pequenina e branca,
Conserva o teu perfume estonteante!
Quando fores velha, emurchecida e triste,
Recorda ao meu amor, com teu perfume
A paixão que deixou e qu’inda existe...
Ai, dize-lhe que se lembre dessa tarde,
Que venha aquecer-se ao brando lume
Dos meus olhos que morrem de saudade!
Florbela Espanca
Crucificada
Amiga...noiva...irmã...o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei de merece-las,
Ao beijar a esmola que me deres.
Podes amar até outras mulheres!
_Hei de compor, sonhar palavras belas,
lindos versos de dor só para elas,
para em lânguidas noites lhes dizeres!
Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei de pousar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.
E depois... Ah, depois de dores tamanhas,
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra mãe!
Florbela Espanca
Biografia – Floberta Espanca